Márcia: 8 anos de silêncio, uma relação que nunca aconteceu — e a voz que ela encontrou
Ela se casou acreditando que havia algo errado com ela. Durante 8 anos, nunca contou a ninguém. Esta é a história de como o silêncio finalmente se quebrou.
Os nomes foram alterados para preservar a privacidade. As histórias são baseadas em perfis reais de pacientes atendidos na PelvClinic.
Márcia tinha 34 anos quando entrou na clínica. Ela chegou com uma pasta cheia de exames, todos normais. Havia passado por dois ginecologistas, uma terapeuta sexual e um médico que simplesmente disse "é nervosismo, relaxa". Ela tinha vaginismo há, pelo menos, 8 anos, embora nunca tivesse ouvido essa palavra antes de nos procurar.
"Eu achei que era defeito meu", ela disse numa voz que soava como quem carrega essa frase há muito tempo. "Meu marido sempre foi paciente, mas eu via que ele estava sofrendo também. E eu me sentia a responsável pelo sofrimento dele."
A palavra que mudou tudo
Quando a fisioterapeuta pronunciou a palavra "vaginismo" e explicou o que era: uma contração involuntária dos músculos do assoalho pélvico, não uma falha de caráter, não falta de desejo, não trauma emocional que ela precisaria "resolver" antes de se "consertar". Márcia chorou. Por um longo tempo.
"Eu chorei de alívio", ela explicou depois. "Porque de repente não era mais um mistério. Não era mais uma falha minha. Era algo que tinha nome, tinha explicação, e tinha tratamento."
O que ninguém havia dito a ela
- O vaginismo não tem relação com falta de vontade ou desejo
- É uma resposta muscular involuntária: o corpo não obedece à mente consciente
- A musculatura pode ser reeducada com técnicas específicas
- Não existe linha do tempo única: cada corpo responde de um jeito
- O tratamento é gradual, respeitoso e acontece no ritmo da paciente
Durante meses, Márcia trabalhou com a fisioterapeuta em sessões que misturavam trabalho corporal com escuta ativa. O marido, Eduardo, foi incluído no processo, não como parte do problema, mas como parceiro da solução.
A carta que ela não precisou enviar
Perto do fim do tratamento, Márcia trouxe algo que havia escrito em casa: uma carta para si mesma dos 26 anos, a versão dela que havia entrado no casamento assustada, em silêncio, convicta de ser defeituosa. A carta dizia, entre outras coisas: "Você não está quebrada. Seu corpo está com medo. E medo, com cuidado suficiente, passa."
Ela não precisou enviar a carta para lugar nenhum. Só precisou escrevê-la.
"Oito anos achando que era defeito meu. Hoje entendo que meu corpo precisava de cuidado, não de julgamento."
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